Artistas que fizeram sucesso na infância tentam manter carreira
DENISE GODINHO
Em São Paulo
Luciano Amaral, Rick Bueno, Leonardo Sierra Monteiro e Simony têm muito em comum. Ao andar pelas ruas, eles são alvos de olhares receosos que suspeitam que já os conhecem de algum lugar. E de fato conhecem! Os quatros foram crianças que brilharam no show-busines brasileiro.
Foi no início da década de 80 que o Brasil presenciou uma avalanche de crianças prodígios cantando e dançando, mas só dois grupos conseguiram se manter firmes no imaginário das pessoas até hoje. Aos quatro anos, Simony recebia um convite que mudaria sua vida: participar do “Balão Mágico”, que no ano seguinte se transformaria em um programa exibido pela TV Globo. “Aquela foi uma época maravilhosa. Foi na infância que eu aprendi tudo o que sei de televisão. Só tenho coisas boas para recordar”, afirma a cantora.
Embalados pela grande repercussão do “Balão Mágico”, outros grupos infantis começaram a surgir. Em 1985, aparecia, ainda meio abafada pelo sucesso do concorrente, a turma do “Trem da Alegria”. Em 1990, Rick Bueno passou a fazer parte do grupo. “Eu participei de um concurso da Rádio Cidade. Na época, eram 15.840 inscritos. A produção precisava escolher uma fita e acabou optando pela minha”, conta o músico, que atualmente segue carreira com a banda de pop-rock “Rick Bueno e Banda”.
Já nos anos 90, o sucesso eram os programas híbridos voltados para o público infantil, cujo conteúdo passava por brincadeiras no estilo disputa entre meninos e meninas, danças, músicas e desenhos animados. Mas o forte deste formato de atrações eram as apresentadoras. Em geral loiras, de voz infantilizadas, usando minissaias e muitos penduricalhos. Nessa onda, um seriado da TV Cultura representou uma inovação e uma demonstração de resistência criativa em meio à tendência monolítica do momento. A série contava a rotina de um menino sonhador, que tinha suas fantasias registradas em um gravador velho, presente do avô no dia de seu aniversário. Afinal, quem daquela geração não se lembra do mote “Diretamente do mundo da lua?”.
Foi assim que Luciano Amaral, hoje com 28 anos, deu o pontapé inicial da sua carreira. “Eles precisavam de alguém com o meu perfil. Foi uma bateria de três testes eliminatórias, com muitas crianças. No fim, os diretores me escolheram”, recorda o ator, que a partir daí começou a experimentar o sucesso como o famoso Lucas Silva e Silva do seriado “Mundo da Lua”.
Em 1994, o programa, que tinha no elenco grandes estrelas como Antônio Fagundes e Gianfracesco Guarnieri, já não era gravado havia um ano. Mas em uma nova empreitada da emissora, Luciano foi convidado a interpretar o Pedrinho de uma outra série, o “Castelo Rá-Tim-Bum”. “Na época, eu ainda era contratado da Cultura. Depois do ‘Mundo da Lua’, eu fiz seis episódios de uma série que chamava ‘Lucas e Juquinha em Perigo! Perigo! Perigo’, que era dirigida por Cao Hamburguer (mesmo diretor do ‘Castelo Rá-Tim-Bum’). A partir daí foi um passo dado para entrar no programa”, conta o ator.
Enquanto no ano de 1997 o “Castelo Rá-Tim-Bum” parava de ser gravado, surgia no SBT o “Quartel General do Comitê Revolucionário Ultra Jovem”, o famoso programa “Cruj”. “Hoje em dia, na Universidade, as pessoas sabem que eu fiz o ‘Cruj’, elas olham e apontam. É super natural”, conta Leonardo Sierra Monteiro, 21 anos, que interpretava o Chiclé no quarteto de amigos.
No entanto, todo o glamour da fama destes atores mirins durou pouco. Com o passar dos anos, seus nomes ficaram vinculados apenas a seus personagens. Mas por que será que o sucesso deles não vingou?
"Para meus pais, eu sempre fui a mesma menina", diz Simony
Divulgação Ex-artistas mirins falam sobre a influência do sucesso na infância
DENISE GODINHO
Em São Paulo
Diversos atores mirins brasileiros não conseguiram manter a fama com o passar dos anos. Luciano Amaral, Rick Bueno, Leonardo Sierra Monteiro e Simony, por exemplo, são lembrados por trabalhos que fizeram na infância.
Segundo a psicóloga Lucia Ferreira da Costa e Silva, os atores mirins sofrem porque têm que arcar precocemente com a fama e muitas vezes não conseguem conciliar a vida profissional com a rotina de qualquer criança, que estuda, brinca, dorme cedo e acorda tarde. “A fama traz responsabilidades e cobranças precoces e tira a possibilidade de atividades coerentes com a idade”, explica a doutora.
Quando se fala em sucesso infantil passageiro, o ator americano Macaulay Culkin se torna uma referência. Ele fez sucesso estrondoso com filmes como “Esqueceram de Mim” e “Anjo Malvado”, e, no entanto, a glória e o dinheiro fizeram com que sua vida seguisse um rumo inesperado. O ator perdeu toda a fortuna, ficou viciado em drogas e esquecido no mundo cinematográfico.
Outro grande ícone do cinema infantil foi a norte-americana Shirley Temple, considerada a maior estrela mirim da década de 30. Aos seis anos, ela já havia ganhado o Oscar como melhor atriz. A pequena prodígio dançava, sapateava, cantava e atuava em filmes clássicos como “A pobre menina rica”, que mesmo gravado em 1936 continua atual e é considerado um de seus maiores sucessos. Hoje em dia? Com 80 anos, Shirley Temple cansou do estrelato e se dedica a ajudar pacientes com esclerose múltipla.
“Esta coisa de sucesso é complicada, principalmente por causa da irrealidade das pessoas. A fama sobe para a cabeça, não tem jeito! E grande parte da culpa é dos pais que incentivam isso”, conta Leonardo, que foi por causa dos pais, atores teatrais, que começou sua carreira artística no papel de Chiclé no programa ‘Cruj’.
Lúcia Ferreira acredita que a família possui uma parcela de culpa em relação à influência do meio artístico. “Normalmente a criança chega nesse espaço em função de uma projeção dos pais. É aquele negócio: sempre quis ser atriz e quando meu filho nasce já faço o book na maternidade e o levo numa agência”, exemplifica a especialista.
A cantora Simony, que fazia parte do grupo “Balão Mágico”, também acredita que no caso das crianças é mais fácil ficar deslumbrado com a fama. Porém, tudo depende do jeito que a família trata o assunto. “Quando você tem uma boa base, isso não acontece. Para os meus pais, eu sempre fui a mesma menina e nunca tive privilégios por conta disso”, revela.
Rick Bueno, do extinto “Trem da Alegria”, possui a mesma opinião. “Sucesso é muito relativo. Independentemente de ser criança ou não, vai da cabeça da pessoa. Eu sempre fui o mesmo, desde quando tinha dez anos”, comenta.
No entanto, Leonardo Monteiro tinha consciência que o sucesso seria passageiro, pois, segundo ele, o programa “Cruj” tinha contrato anual. Por issos os atores nunca sabiam quando ia acabar. “Ao término do contrato, coloquei na balança o que eu realmente queria e ela pendeu para seguir a área de exatas e fazer engenharia”, diz ele, que optou pelo sonho assim que o “Cruj” saiu do ar, em 2002, devido à perda de audiência com a criação do canal “Disney Channel”.
Já Luciano, o Lucas Silva e Silva do programa “Mundo da Lua”, exibido pela TV Cultura, acredita que a fama precoce está relacionada à necessidade da televisão por materiais novos. “É difícil para alguns atores de desvincularem de alguns personagens, uma vez que a maioria dos trabalhos
feitos na infância se torna muito marcantes. Sem contar a
necessidade que a mídia tem de novidades”, explica.
Rick Bueno também atribui o fim da fama à dificuldade de desprender o nome do artista ao do personagem. “Depois do ‘Trem da Alegria’, muitas pessoas me cobraram porque queriam formar um grupo novo, mas não dava para tentar reacender aquele sucesso. O ‘Trem’ era um só e o projeto acabou não dando em nada”, conta o cantor.
Fama e privacidade de crianças que fazem sucesso na televisão
Divulgação Para integrante do "Trem da Alegria", fama não passava de brincadeira
DENISE GODINHO
Em São Paulo
Quando a pressão da vida profissional é bem administrada, o sucesso ocorre com mais facilidade e acaba transformando as estrelas mirins em crianças maduras. “Dentro do contexto onde elas vivem, o nível de exigência e competitividade é alto e isso acarreta na vinda mais cedo da maturidade”, revela a psicóloga Lucia Ferreira da Costa e Silva.
“A fama do ‘Cruj’ era muito grande e, por isso, sempre tinha alguém que me reconhecia na rua. Foi estranho porque eu não gostava de dar oi, mas minha mãe me aconselhava e eu tive que aprender a lidar com a privacidade”, diz Leonardo Monteiro, que interpretou o personagem Chiclé. “Mas hoje é tranqüilo conversar sobre isso, as pessoas têm curiosidade”, completa.
Para Lucia, é difícil manter a privacidade no meio artístico. “É complicado quando você escolhe uma vida pública, mas tem como aprender a lidar com a privacidade de uma forma menos invasiva”, explica.
Luciano Amaral exemplifica o problema da privacidade com o site de relacionamentos “Orkut”. “Quando você tem um orkut normal, as pessoas escrevem e se você não responde já é tachado de ignorante. E se responde, começam querer intimidade e aí é um problema!”, confessa o ator, que hoje em dia possui um perfil no orkut para adicionar apenas pessoas do seu círculo de amizades.
A cantora Simony não tem problema em ser lembrada pelo “Balão Mágico” e diz que adora receber este carinho. “As pessoas lembram de mim com o programa. Eu me sinto super bem com tudo isso”, revela a ex-estrela mirim.
No caso do ex-integrante do “Trem da Alegria” Rick Bueno, o sucesso da época não passava de diversão. “Era impossível sair na rua e não me reconhecerem. Eu parava, conversava e adorava, porque não tinha muita noção do que estava acontecendo. Para mim, era uma brincadeira. ‘Ah, hoje eu vou ao programa da Xuxa, do Gugu?’, legal, eu ia lá, cantava, virava as costas e ia embora”, conta ele.
Atualmente, os ex-ícones mirins estão bastante cientes que seus respectivos programas fizeram sucesso, mas hoje em dia as lembranças não interferem no dia-a-dia. “Não descarto a possibilidade de fazer teatro, quando eu tiver mais tranqüilo, daqui uns dez anos, quem sabe”, comenta Leonardo Sierra Monteiro, que participou do programa “Cruj”. Já Luciano está aproveitando um longo período de férias. “Tem muitas coisas que eu quero fazer, principalmente voltar a atuar na TV, mas por enquanto estou de férias”, arremata.
Simony prova que sua fase de ‘Balão Mágico’ fez muito bem para a sua carreira, principalmente agora que está lançando o seu novo disco “Simony Super-Fantástica”. “Terá os melhores hits regravados da época”, avisa a cantora.
Rick Bueno também soube aproveitar seu período de sucesso. Atualmente, ele engatilha um novo trabalho artístico voltado para a carreira musical. Por meio deste projeto, Rick resgata antigas canções que embalaram o público infantil, como “He-man”, entre outras interpretações, experimentando uma combinação com ritmos do pop rock. “Agora estou lançando o primeiro disco da banda, que segue influências dos anos 80”, finaliza.
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