segunda-feira, 19 de maio de 2008

Por que os homens não cuidam da saúde?

Há mais do que simples desleixo por trás da dificuldade que eles têm de encarar as doenças. Veja como ajudá-los na prevenção e na cura, sabendo que você faz toda a diferença nessa história

Cristina Nabuco

A maioria dos homens só vai ao médico por insistência feminina. Quem faz essa afirmação é o urologista João Schiavini, responsável pelo setor de andrologia do Hospital Pedro Ernesto, no Rio de Janeiro. “As mulheres são verdadeiras heroínas. Marcam consultas, acompanham os maridos e namorados ou vêm sozinhas com os exames. Encontrei muito câncer de próstata graças a elas”, relata ele. A experiência do médico bate com a de cada uma de nós em casa e foi confirmada pela maior pesquisa sobre hábitos de vida dos brasileiros, realizada entre julho e dezembro do ano passado pelo Ministério da Saúde com 54 mil pessoas das 26 capitais e do Distrito Federal. Os técnicos concluíram que comportamentos saudáveis – como aumentar o consumo de frutas – são muito mais comuns entre as mulheres.

Um claro exemplo da diferença entre os sexos apareceno controle do peso. Segundo a coordenadora da pesquisa, a médica sanitarista Deborah Malta, 38,8% das brasileiras estão acima do peso contra 47,3% dos brasileiros. Entre as mulheres que estudaram por mais de 12 anos, o índice cai para 31,2%. Nos homens, porém, ocorre o inverso: entre os mais graduados, o excesso de peso sobe para 55,9%. Uma das explicações para a disparidade: os homens com alta escolaridade são justamente os mais sedentários. “Ter estudo não faz com que se tornem mais zelosos”, diz Deborah. “É preciso disseminar entre eles informações sobre a importância de se cuidar.” Os dados indicam, ainda, que as mulheres fazem consultas médicas em números superiores no sistema público e no setor privado. Elas também contratam mais planos de saúde do que seus parceiros.

Eles têm que ter a força

A diferença no cuidado com o corpo é atribuída a fatores culturais. “A menina é estimulada a procurar o ginecologista desde o início da menstruação e a fazer exames preventivos a partir da primeira relação sexual. Já o rapaz só vai ao médico quando está doente”, compara Adson França, diretor do Departamento de Ações Estratégicas e Programas do Ministério da Saúde, que agendou para agosto a primeira Semana Nacional de Atenção e Promoção à Saúde do Homem.

A campanha terá o objetivo de conscientizar o sexo masculino sobre a urgência de adotar hábitos saudáveis e de realizar exames preventivos. “Se o homem tiver acesso a campanhas educativas que falem a linguagem dele e encontrar ambulatórios médicos que funcionem aos sábados e após as 18 horas, ele começará a se cuidar”, aposta Sidney Glina, que até dezembro presidiu a Sociedade Brasileira de Urologia.

Meninos ainda não choram

Antes disso, é preciso quebrar alguns mitos. O psicanalista Sócrates Nolasco, autor de quatro livros sobre o universo masculino, afirma que “ir ao médico significa reconhecer a própria vulnerabilidade, o que é incompatível com a imagem de virilidade valorizada na sociedade”. Ele explica que o conceito de fortaleza atendeu às necessidades da espécie enquanto os machos eram caçadores, mas, hoje, esse padrão não tem mais razão de ser. “Olhar para a saúde significa admitir que o corpo não é perfeito”, observa Nolasco. Para mudar de atitude, melhorar a dieta, fazer exercícios e check-ups regulares, o homem precisa perder a onipotência, o que, segundo o psicanalista, só acontece depois de uma situação-limite, quando ele adoece ou perde um amigo e se vê obrigado a aceitar que é mortal.

Conscientemente ou não, a mulher alimenta a onipotência do homem, como revela a psicóloga Ana Maria Rossi, presidente no Brasil do International Stress Management Association, organização voltada para a prevenção e o tratamento do stress. “Ainda hoje, quando o garoto chora, a mãe diz: ‘Homem não chora’ e o condiciona a não expressar as emoções.” Segundo a psicóloga, sintomas físicos acabam sendo interpretados na família como sinal de fraqueza. Como se não bastasse, ao se machucar, o menino perde autonomia. Com arranhões e pequenas contusões, não poderá sair para jogar futebol. “Aos poucos, ele vai aprendendo a não revelar a dor, também por medo de perder benefícios. Por isso, nem pede ajuda”, afirma Ana Maria. “A atitude mais freqüente do homem é negar ou desqualificar os sintomas. Se sente dor nas costas, toma um relaxante muscular; se o estômago incomoda, engole um antiácido e se gue em frente. Diz que não tem tempo, culpa a agenda lota da e posterga a ida ao médico.”

Ao escrever o livro ESTRESSE MASCULINO – UM GUIA PARA IDENTIFICAR E CONTROLAR O ESTRESSE DOS HOMENS (EDITORA ARTES E OFÍCIOS), de 1993, relançado em 2005, Ana Maria observou que falta aos homens um termômetro: “Eles não conseguem perceber quando o stress causa desequilíbrio e, assim, não agem de maneira preventiva. Quando se dão conta, já estão seriamente doentes”. Não é de estranhar que distúrbios passíveis de controle sejam descobertos em fases bem avançadas, quando já produzem estragos. É o caso das doenças do aparelho circulatório, que provocaram em 2004 a morte de 41 666 homens entre 15 e 59 anos – e de 26 969 mulheres da mesma faixa etária.

Conversa, não cobrança

Como a mulher sabe ouvir o alarme, pode agir para evitar perigos que rondam o par. “Os melhores resultados são atingidos quando ela dá apoio e se mostra preocupada com o bem-estar do marido, do casal e da família”, diz o urologista João Schiavini. “Com a ajuda, o homem adere à dieta e até se lembra de tomar os remédios.” Mas a participação deve ser agradável: “Já tive paciente que voltou ao consultório sem a esposa porque não suportava ser criticado por ela na minha frente”.

O importante é conversar, evitando cobranças e acusações. Ana Maria Rossi lembra que, por melhor que seja a intenção, não é possível ajudar quem não quer ser ajudado. Nesse caso, a mulher precisa controlar a ansiedade ou acabará frustrada. Mas, se quiser obter avanços, deve focalizar o lado positivo. “Em vez de dizer que ele está gordo, deve destacar quanto ganhará com a mudança na alimentação”, sugere a psicóloga. Também pode introduzir cardápios leves em casa e convidar o marido para caminhadas. Afinal, quando você se inclui, a dieta e os exercícios deixam de ser uma imposição e passam a ser um programa compartilhado – e podem até significar uma gostosa mudança de vida.

Depois do susto

Aos 40 anos, o empresário Haider da Silveira estava no Guarujá, no litoral paulista, para o réveillon quando sentiu fortes dores no peito. Como as horas passavam e a dor não cedia, procurou um hospital. Fez eletrocardiograma, dosagem de enzimas cardíacas e raios X do tórax. A médica viu os resultados e, sem dar o diagnóstico, disse que pretendia interná-lo. Quando ela saiu da sala, Haider pegou os exames e, simplesmente, fugiu. Queria consultar um médico em São Paulo. Subiu a serra dirigindo. Por insistência da esposa, foi parar no Instituto do Coração, do Hospital das Clínicas. “Os médicos olharam os exames e disseram que eu havia sofrido um infarto. Fiquei na UTI por 72 horas.” Haider nem tinha convênio médico. Corria sem a menor regularidade, estava sempre ansioso e fumava três maços de cigarro por dia. Depois do susto, parou de fumar, procurou uma academia e passou a controlar o peso, diminuindo as porções no jantar e eliminando o lanchinho da madrugada. Hoje, aos 48 anos, submete-se a check-ups anuais e pratica corrida sob a orientação de um instrutor. “Se eu soubesse que enfartaria, teria deixado de fumar muito mais cedo”, admite. “Minha mulher vivia falando para eu cortar o cigarro e a comida da madrugada. Mas eu não ligava. Hoje, pego no pé dos meus irmãos para a necessidade de prevenção, mas eles não me ouvem.”

Fique de olho
O QUE O HOMEM PODE PREVENIR OU DIAGNOSTICAR PRECOCEMENTE
Infartos e derrames

Fatores de risco são identificados pela pressão arterial (uma vez por ano), pelo perfil lipídico (anual, dosa no sangue o colesterol, suas frações e triglicérides) e pela glicemia de jejum (anual, mede a taxa de açúcar para pesquisa de diabetes). A eletrocardiografia de esforço verifica a presença de obstruções nas artérias (anual, a partir dos 35 anos).
Câncer de próstata

O toque retal (apalpação do órgão no exame clínico) e a dosagem da enzima PSA no sangue, anualmente a partir dos 40 anos, ajudam a detectar a doença ainda no início.
DAEM

O diagnóstico do distúrbio androgênico do envelhecimento masculino prevê a dosagem de testosterona. A doença, caracterizada pela queda brusca na produção do hormônio, leva ao cansaço físico, à irritabilidade e à perda do desejo sexual.
Câncer de pele

Se ele tiver pele clara e pintas, deve consultar o dermatologista. Caso as pintas se modifiquem ou apareçam feridas que demoram a cicatrizar, o controle deve ser mais rigoroso.
Glaucoma

A partir dos 40 anos, deve-se controlar a pressão intra-ocular, que, elevada, pode significar a presença da doença e ainda levar à cegueira.

Humanizar a onipotência


Aceitar a própria vulnerabilidade. Este é o caminho para conseguir que os homens cuidem da saúde, explica nesta entrevista o psicanalista Sócrates Nolasco, professor da Universidade Federal do Rio de Janeiro e autor de quatro livros sobre o universo masculino, entre os quais se destacam "O Primeiro Sexo e Outras Mentiras Sobre o Segundo: As Questões que Estão Mexendo com a Cabeça dos Homens" ( Ed. Bestseller, 2006) e "De Tarzan a Homer Simpson: banalização e violência em sociedades contemporâneas Ocidentais" (Ed. Rocco, 2001).

CLAUDIA: Por que o homem não cuida da saúde?
Sócrates Nolasco: Porque há uma imagem consolidada de que homem tem que agüentar qualquer tranco. Desde pequeno, ele aprende que homem não adoece. Cuidar da saúde significa admitir que ele não é um homem muito bom, do contrário, sua saúde estaria perfeita. Adoecer está associado à idéia de fragilidade que é incompatível com a imagem de ser forte, poderoso e vencedor predominante na nossa sociedade e disseminada especialmente entre os mais velhos. Os rapazes de 20 e poucos anos ainda não mudaram esse conceito, embora já sejam um pouco mais receptivos a cuidados, em função, sobretudo, de padrões estéticos: eles freqüentam academias, fazem uso de anabolizantes e se sujeitam a dores e lesões por excesso de esforço porque desejam ficar fortes. É importante salientar que enquanto era caçador e lutava nas guerras o homem precisava dessa idéia de fortaleza para sobreviver. Hoje não precisa mais.

O que o homem teme é a sensação de fragilidade?
O homem aprende que tem que suportar tudo. Só que na realidade não é bem assim. Por isso o sexo masculino abusa do álcool e se envolve mais em aventuras sexuais como forma de escoar essa pressão. Se eu me vejo forte, tudo que ameaçar esse conceito pode causar angústia e despertar o medo de perder o controle. É o que acontece ao tomar injeção. A agulha é um objeto estranho que entra no corpo e deixa alguma coisa ali. Passa o medo de ser invadido. Há também o medo do médico por ser alguém que sabe mais de mim do que eu mesmo. Quanto menos intimidade o homem tiver com o seu corpo e sua saúde mais os medos tendem a crescer.

Por que eles ficam tão fracos quando adoecem?
Porque no nosso contexto adoecer, fragilizar-se, é uma situação em que homem nenhum jamais deveria estar. A novidade causa muito desconforto. É como um índio voando de avião pela primeira vez. O homem tem muito medo de perder a onipotência. É por isso que remédios como o Viagra fazem sucesso inclusive entre rapazes de 20 e poucos anos. Eles reforçam a sensação de que eles podem tudo, jamais falharão. Pela mesma razão houve crescimento na venda de antidepressivos como o Prozac, que levam embora a tristeza, trazendo a certeza de que nada vai me abalar. Para cuidar da saúde, o homem precisa reconhecer que é mortal. Ele só faz acompanhamento médico, melhora a dieta e se exercita quando acredita que é vulnerável. Os cuidados exigem, portanto, a humanização da onipotência.

Como essa humanização acontece na prática?
A mudança de hábitos decorre muitas vezes da vivência de uma situação limite. O homem chega a adoecer ou quase faz um quadro grave, escapa por pouco de um infarto, acompanha de perto a morte de um amigo ou parente, aí toma um grande susto e começa a mudar de hábitos. O caminho poderia ser outro: conscientizar-se do dado factual de que é possível viver catorze anos a mais se cuidar da saúde. Este é o caminho para estender sua expectativa de vida.

De que forma a mulher poderia ajudá-lo?
Mostrando que realmente gosta do parceiro e deseja ficar ao lado dele o maior tempo possível. Demonstrando sua preocupação com a saúde do homem sem parecer cobrança, acusação ou desqualificação. De modo leve e sutil para que as conversas sobre cuidados de saúde não prejudiquem a relação. Se o homem entende as observações femininas como desqualificação, cresce a tensão entre os dois. Mas sabendo de antemão que não poderá sempre marcar médico para o marido, que afinal é uma pessoa adulta. Um dia ele terá que assumir a tarefa que é dele.

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